DESENTENDIMENTO

O Instituto Moreira Salles tem contribuído com reflexões à cerca da cultura brasileira. Num dos debates da seção Desentendimento, os críticos literários Beatriz Rezende e Alcir Pécora refletem sobre a literatura brasileira contemporânea.

A Beatriz tem a opinião que mais me agrada em relação a produção literária destes modorrentos anos dois’mil. Sabe que não há nada de muita relevância sendo feito por aqui no Brrrrasil, mas também sabe que a criação artística é subjetiva, e não algo que tem uma função ou seja prática pra algo ou alguém. O Alcir tem a fagulha da polêmica, bastante necessária, e provavelmente, sua opinião foi o que fez este debate ser tão comentado por aí (eu soube pelo jornal carioca). Sim, o Alcir está correto ao dizer que não há nenhum Dostoiévski entre nós, mas está sendo besta ao pensar que deveria existir um Dostoiévski de 50 em 50 anos. É a mesma opinião que diz que o cinema acabou no cinema mudo, e que ninguém mais faz música depois de Beethoven. Alcir é um crítico que tem o pensamento preso nos quereres acadêmicos. Ele acredita que a literatura (a arte em geral) tem alguma função. Que pena. Não tem. É como se estivesse comparando um poema à um liquidificador. É uma forma muito ocidental (pra não dizer capitalista e incitar os demônios por aqui) de se pensar as cousas. Essa é a crítica que pensa que um escritor está escrevendo algo para poder salvar a humanidade. Isto não se faz nos livros. E se Kafka, e outros, refletiram ou mudaram o mundo, é porque não era mais que natural na época se pensar assim (e olhe lá, porque posso dizer que Kafka estava apenas colocando os sonhos no papel e fazendo isso como quem faz tricô. Mas isso é o meu humor). Eu, como artista que tem o trabalho com a palavra como matriz para todas as outras atividades que pratico, e que se preocupa com o futuro do futuro, sinto que o exercício criativo vai muito mais além do que a produção do grande romance da geração, a grande obra que compreende a humanidade em determinado período, isso é papo de quem escreve a Bíblia. Escrever é muito mais do que escrever pro mundo.

Em outro momento o Alcir falou da internet, as redes sociais, os blogs, e ali sim, paradoxalmente, ele me pareceu fazer sentido com o contemporâneo. Acho importante discutirmos isso. Aí sim pode estar uma lança de estética da vida moderna que poderá influir nas linguagems literárias.

No mais, o IMS tá escrevendo a história.