A PERGUNTA



————— Mensagem enviada —————

De: Gabriel Pardal
Para: Gabriel Camões
Data: 15 de março de 2011 18:32
Assunto: A pergunta


Por algum motivo lá pelo ano de 1984 papai e mamãe resolveram que seu primeiro filho se chamaria Gabriel. Se por algum outro motivo (quais os motivos?) eles escolhessem me chamar por outro nome, eu seria quem sou? Se me chamasse Pneu? Uma rosa é uma rosa é uma rosa. Quanto do nome de uma pessoa planta a sua personalidade? Quem veio primeiro o nome ou a personalidade da galinha? Sei que eu e você brindamos o mesmo nome e a mesma habilidade de abraçar amigos e deixá-los confortáveis. // Atenção: não é confortados. É confortáveis. Como uma piscina de algodão. // É uma escolha que nós, ainda filhos, não tivemos o direito de decidir e a qual vai nos pertencer por toda vida. Oi, prazer, minha vida chama-se Gabriel. 


De dentro desse túnel se abrem janelas que levarão para outro túnel e escolher entre uma janela ou outra é o que nos cabe. Gato ou Cachorro? Doce ou Salgado? Blue Pill ou Red Pill? Solidão ou Etc? Acredito que seja quase impossível prever absolutamente o resultado de uma escolha. Ninguém pode prever a loucura que nos aguarda. Por isso corro o perigo de me decidir pelo instinto, enxergando pelo buraco do coração, na tentativa de ler as sombras expostas em cada passo que dou por aquilo que assumo. Toda vez que virei à direita, deixei de virar à esquerda. E não bastando, não escolher também é uma escolha. Portanto, se não pode escolher o mundo então não deixe que o mundo escolha por você. A trajetória que tomamos é que define o que somos: A trajetória é Eu. 


Como você é meu amigo, sou tua ambulância, me preocupo com quais opções de caminhada se apresentam em seu túnel. Um dia ou outro você me chama para cozinhar as angústias, e, por te amar, discutimos facilidades, sensibilidades, a coragem e o sonho envolvidos nessas decisões. Estou pronto para te empurrar na ladeira que decidir, mas em hipótese alguma sei te dizer qual deve ser o melhor vento para assobiar. É o executor que tem em suas mãos a máquina de acontecer. Somos dois Gabriel e podemos inventar caminhos distintos. Quantos Gabriel existem no mundo? Tem algum Gabriel astronauta aí? Gabriel Dylan? Gabriel Mozart? 


Assim como todo texto quer dizer “Me escuta” (até o “Não estou nem aí pra você” quer dizer “Me escuta”) toda vida não quer dizer Vida, mas sim “Vida?”. Nessa carta estou esganando essas palavras, mas posso apagar tudo e só deixar o miolo, o núcleo, o que no fundo queremos dizer com todas essas letrinhas, com toda essa vidinha que levamos, e é isso que quero perguntar pra você: Me escuta. Vida? Escolheu?



(Gabriel Pardal e Gabriel Camões final de 2010)



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